A tendência ao se discutir meio ambiente é, a princípio, tratá-lo como coisa distinta da vida humana, de um lado estou eu, humano, ser desenvolvido, ou, como apontado no documentário curta-metragem Ilha das Flores, ser que possui telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, de outro lado, está a natureza, a fauna: os animaizinhos indefesos, e a flora: plantas e tomates.
Eu, como ser humano, ser supremo e dono do planeta em que habito - sim, a casa é minha - devo cuidar desses animais e plantas, por que sou bondoso. Devo cuidar também dos outros seres humanos, os que não mandam na casa como eu por que não tem dono, nem dinheiro.
E assim tudo fica bem fácil, bem simples. Assim respeitar a natureza torna-se um ato de caridade, separo o lixo por que sou politicamente correto, e acho justo ser parabenizado por isto, pela minha atitude tão civilizada.
Grande equívoco.
Meu polegar opositor e meu telencéfalo altamente desenvolvido me deram o poder de plantar tomates, construir bombas e combinar moléculas de maneira que elas se tornem altamente nocivas e poluentes. Mas eles não me deram este direito, por que, na realidade, a casa não é minha, não mais minha do que dos animaizinhos indefesos ou dos tomates, ou dos outros seres humanos, aqueles que não tem dono nem dinheiro.
É a mesma tendência de nos acharmos donos da casa em relação ao meio ambiente natural, tudo que a natureza colocou no planeta, que nos leva a crer que somos nós que devemos decidir quem tem prioridade na hora da refeição, que é claro, são os nossos porcos, por que são nossos. Por que somos donos dos porcos, do planeta e do dinheiro, a sim, e da natureza.
Que incoerência, nos achamos donos do meio que nos envolve, somos um dedo polegar opositor querendo mandar no corpo, um dedo que não sabe que o corpo sobrevive sem um dedo, mas um dedo não sobrevive sem um corpo.
Então, enquanto nos achamos muito bons protegendo a natureza nos esquecemos que só temos que protegê-la por que nós mesmos a ameaçamos. E mais do que isso, ignoramos completamente o fato de que nós é que seremos prejudicados com a nossa própria destruição.
Assim, vemos o mundo se conformar com o paradoxo que é o antropocentrismo, mesmo que alargado ou moderado, em que a proteção da natureza tem causa puramente egoística, buscando apenas o suprimento da necessidade do homem, respeitando a natureza no limite em que ela consiga beneficiar o homem, e nem um centímetro a mais. Ou seja, só não destruímos aquilo que nos será necessário, só cuidamos até o ponto em que ainda poderemos retirar algo, não queimamos aquele determinado solo por que precisaremos plantar em seguida, não desmatamos uma pequena área por que precisamos de, no mínimo, mata ciliar para garantir o abastecimento de água, mas fazemos tudo isso por nós, e da maneira mais moderada possível, mas na verdade já passamos do limite da destruição, já perdemos o controle e ninguém sabe ao certo as conseqüências futuras de todas as interferências que o homem já fez na natureza. Tudo aquilo que fizemos ou deixamos de fazer por nós, reverte-se agora contra nós.
O que ocorreu não foi uma negligencia com a proteção há natureza, pois não fossem os abusos humanos a natureza jamais precisaria ser protegida, o que ocorreu foi uma deliberada destruição ao meio ambiente natural.
Tão preocupados que sempre estivemos em não deixar que a proteção à natureza atrapalhasse a evolução científica ou o crescimento econômico, sempre visando tais aspectos em detrimento do meio ambiente, agora estamos sendo cercados por todas estas opções que fizemos e nos aproximando de um beco sem saída.
Fomos livres para escolher os caminhos que tomamos e esta liberdade está a ponto de nos aprisionar. De nada adiantará a liberdade sem recursos. Os seres humanos do documentário “Ilha das Flores” que sobrevivem das sobras são livres e sem recursos. A falta de recursos para a qual estamos caminhando é resultado direto de tudo o que foi produzido pela humanidade até hoje, a evolução no meio ambiente artificial não tomou conhecimento da devastação do meio ambiente natural, quando muito do cultural, e a qualidade do ambiente laboral é privilégio de poucos.
Neste sentido amplo de meio ambiente, abrangendo estes quatro aspectos citados: natural, artificial, cultural e de trabalho, nota-se que seus desenvolvimentos foram díspares. No intuito de desenvolver o meio ambiente artificial, nos fartamos indiscriminadamente dos recursos advindos do meio ambiente natural, negligenciamos a proteção ao meio ambiente cultural, e demos pouca atenção ao meio ambiente de trabalho.
E o pior de tudo, é que nós não paramos. Ainda estamos evoluindo desta maneira disforme, estamos tapando buracos, mas continuando no mesmo caminho, e os danos causados já são irreversíveis.
A visão antropocêntrica a qual estamos acostumados pressupõe uma relação de posse, o homem como dono do ambiente em que vive, porém o que se busca agora é uma visão ecocêntrica ou biocêntrica do mundo, em que homem e meio ambiente convivem entre si sem relação de posses, coabitando em um mesmo grau de importância, em que o homem possa exercer sua liberdade consciente de que seu futuro e o futuro do meio ambiente é o mesmo.